

Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior.
— “Pena”, O Teatro Mágico
Assim como o poeta, os Guias penam quando o pano cai. E o pano cai.
Livros em oferta, oferta em Amazon,
poesia em promoção, a prosa presa em tela,
história rara em liquidação.
Nos rios abertos de uma Amazônia só nossa fluem narrativas em brasileiro; histórias que, vez ou outra, ao navegar por rios que banham vários Brasis, encontram raras quedas d’água fantásticas. E quando, por algum mundano evento de divino mundo, isso ocorre: Cascártica.
Quando ela acontece, todos que a ela descobrem pertencer sentem ser um tanto bem maior.
E quando o nó cegar, e ele vai cegar,
Deixa desatar em nós,
Leitores,
Escritores,
Tradutores,
Editores,
Revisores,
Preparadores,
Diagramadores,
Ilustradores,
e suas dores,
Deixa desatar em nós,
Solta a prosa presa.
Você saberá que é um tanto bem maior.
Sem horas e sem dores, com vocês,
Cascártica.
Para os curiosos de plantão, o nome da revista literária do Fantástico Guia é uma mistura de “cascata” com “catártico”. Veio dessa ideia de deixar as coisas fluírem caóticas e intensas como um rio caudaloso e ver no que vai dar — sabendo que, independentemente do percurso, o resultado vai ser uma beleza de tirar o fôlego.
E não poderia descrever melhor o processo de criação e execução da Cascártica, uma revista-escola. Se você não conhece o conceito… bom, faz sentido, porque ele foi surgindo conforme a gente aprendia a navegar pela ideia maluca de editar uma revista literária com propósitos pedagógicos.
Tentando explicar em retrospecto, hoje chamamos a Cascártica de revista-escola porque nós, Diogo e Jana, decidimos usar o espaço para compartilhar nossa experiência de quase uma década trabalhando como editores em nossas respectivas revistas (a Taverna e a Mafagafo) com pessoas interessadas em saber mais sobre os bastidores do mercado editorial. E, como a melhor forma de aprender é botar a mão na massa, todos os participantes do CLET (nosso Clube de Leitura, Edição e Traição) que desejaram entraram na dança participando, na prática, dos processos de leitura-peneira, seleção, tradução inglês-português, edição, preparação e revisão de todas as histórias desta edição — é por isso que, abaixo do título de cada obra, você vai encontrar uma lista extensa de pessoas creditadas em diferentes serviços editoriais. Os membros da nossa equipe também acompanharam o gerenciamento da revista como um todo, aprendendo sobre redação de editais, elaboração de contratos, contato com autores (brasileiros e estrangeiros), marketing e afins.
A contrapartida desse imenso processo de aprendizagem mútua e coletiva foi que a primeira edição da Cascártica demorou um bocado para acontecer; as histórias que chegaram pelo edital aberto começaram a ser compradas em agosto de 2024, um ano e meio atrás — e por isso, agradecemos a imensa paciência não só de você, pessoa que lê esta revista, como também de todos os nossos maravilhosos autores. Suas histórias enfim estão no mundo depois de serem tratadas com muito carinho por inúmeras mãos.
Valeu a pena esperar? Com certeza. Nossa deslumbrante primeira edição, cuja ilustração de capa é do talentosíssimo (e querido) Janio Garcia, abre com “Fogaréu”, de Arthur S. Brum; a história rica em texturas, cheiros e sons é narrada por um personagem deliciosamente peculiar, que conta de suas andanças pelo sertão Cariri. Depois vem “O vento do meu espírito soprou sobre a vida”, de Erica Nara Bombardi, um conto terno e gostoso como abraço de mãe sobre uma mulher encarregada de cuidar de bichos mágicos que, com aparência de bebezinhos meio encapetados, acabaram de chegar ao nosso mundo. Já “O monstro do Igarapé das Almas”, de Bia Chaves, é dolorido, melancólico e profundo como um igarapé, uma carta de amor e arrependimentos sobre um monstro que foi forçado a sê-lo. “Breve biografia de uma cadeira lúcida”, do nosso brasileiríssimo Renan Bernardo, é a primeira das quatro histórias escritas originalmente em inglês da edição; com uma narradora pouco convencional compartilhando sua forma de ver o mundo enquanto é levada de um lado para o outro, ela conquistou tanto o mundo anglófono que foi finalista do prestigiadíssimo prêmio Nebula na categoria noveleta. Falando em mundo anglófono e em prêmio, temos a honra de publicar em português brasileiro “O algoritmo do bem-estar”, da multipremiada Naomi Kritzer; na história “anti-Black Mirror”, nada mais, nada menos do que vencedora do Hugo e finalista do Nebula de melhor conto, acompanhamos os desenrolares de um aplicativo em que um algoritmo muito bem-pensado realmente contribui para uma vida melhor. Em “Uma eulógia para todos os fins”, história da Jana publicada lá fora na antologia Imagine 2200, conhecemos o dia a dia da tanatopraxista de Caiação, uma comuna onde se vive de forma tão sustentável quanto possível, e onde os mortos contam com a ajuda de fungos para voltar à terra se integrando de forma saudável ao solo. Para fechar, “Quatro memórias soltas”, do Diogo, é um presente para a comunidade do Fantástico Guia; essa ficção relâmpago sombria sobre travesseiros capazes de expurgar memórias desagradáveis está planejada para sair em 2026 na coletânea em inglês Of Dread, Decay, and Doom — mas você vai poder dizer que leu primeiro aqui na Cascártica.
Dito isso, é hora de desejar uma ótima leitura! Se você curtiu a edição, compartilhe com o mundo a existência da Cascártica para que essas histórias incríveis cheguem a mais pessoas. E se tiver interesse em fazer parte da nossa equipe, pode entrar em contato pelo fantasticoguia@gmail.com que explicamos tudo sobre o CLET; lembrando que todos os nossos autores (assim como ilustradores de capa) firmam contratos, são pagos pelos direitos autorais e não precisam investir nem um real em serviços editoriais, feitos de forma voluntária pelos Guias e pelos membros do CLET.
Isso só é possível devido à contribuição mensal de todos os participantes dos Clubes ou das Turmas do Fantástico Guia.
E por falar nisso, esta edição é dedicada a todas as pessoas incríveis que fazem ou já fizeram parte da equipe da Cascártica. Obrigada por ter dedicado tempo e esforço à nossa revista e por acreditar nessa ideia de que é muito mais legal aprender na prática — e junto com outras pessoas interessadas em conhecer mais do mercado editorial. A jornada não precisa ser solitária, e o vasto mundo das revistas literárias ainda nos reserva muitas aventuras.
Um abraço cascártico,
Diogo e Jana
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior.
— “Pena”, O Teatro Mágico
Assim como o poeta, os Guias penam quando o pano cai. E o pano cai.
Livros em oferta, oferta em Amazon,
poesia em promoção, a prosa presa em tela,
história rara em liquidação.
Nos rios abertos de uma Amazônia só nossa fluem narrativas em brasileiro; histórias que, vez ou outra, ao navegar por rios que banham vários Brasis, encontram raras quedas d’água fantásticas. E quando, por algum mundano evento de divino mundo, isso ocorre: Cascártica.
Quando ela acontece, todos que a ela descobrem pertencer sentem ser um tanto bem maior.
E quando o nó cegar, e ele vai cegar,
Deixa desatar em nós,
Leitores,
Escritores,
Tradutores,
Editores,
Revisores,
Preparadores,
Diagramadores,
Ilustradores,
e suas dores,
Deixa desatar em nós,
Solta a prosa presa.
Você saberá que é um tanto bem maior.
Sem horas e sem dores, com vocês,
Cascártica.
Para os curiosos de plantão, o nome da revista literária do Fantástico Guia é uma mistura de “cascata” com “catártico”. Veio dessa ideia de deixar as coisas fluírem caóticas e intensas como um rio caudaloso e ver no que vai dar — sabendo que, independentemente do percurso, o resultado vai ser uma beleza de tirar o fôlego.
E não poderia descrever melhor o processo de criação e execução da Cascártica, uma revista-escola. Se você não conhece o conceito… bom, faz sentido, porque ele foi surgindo conforme a gente aprendia a navegar pela ideia maluca de editar uma revista literária com propósitos pedagógicos.
Tentando explicar em retrospecto, hoje chamamos a Cascártica de revista-escola porque nós, Diogo e Jana, decidimos usar o espaço para compartilhar nossa experiência de quase uma década trabalhando como editores em nossas respectivas revistas (a Taverna e a Mafagafo) com pessoas interessadas em saber mais sobre os bastidores do mercado editorial. E, como a melhor forma de aprender é botar a mão na massa, todos os participantes do CLET (nosso Clube de Leitura, Edição e Traição) que desejaram entraram na dança participando, na prática, dos processos de leitura-peneira, seleção, tradução inglês-português, edição, preparação e revisão de todas as histórias desta edição — é por isso que, abaixo do título de cada obra, você vai encontrar uma lista extensa de pessoas creditadas em diferentes serviços editoriais. Os membros da nossa equipe também acompanharam o gerenciamento da revista como um todo, aprendendo sobre redação de editais, elaboração de contratos, contato com autores (brasileiros e estrangeiros), marketing e afins.
A contrapartida desse imenso processo de aprendizagem mútua e coletiva foi que a primeira edição da Cascártica demorou um bocado para acontecer; as histórias que chegaram pelo edital aberto começaram a ser compradas em agosto de 2024, um ano e meio atrás — e por isso, agradecemos a imensa paciência não só de você, pessoa que lê esta revista, como também de todos os nossos maravilhosos autores. Suas histórias enfim estão no mundo depois de serem tratadas com muito carinho por inúmeras mãos.
Valeu a pena esperar? Com certeza. Nossa deslumbrante primeira edição, cuja ilustração de capa é do talentosíssimo (e querido) Janio Garcia, abre com “Fogaréu”, de Arthur S. Brum; a história rica em texturas, cheiros e sons é narrada por um personagem deliciosamente peculiar, que conta de suas andanças pelo sertão Cariri. Depois vem “O vento do meu espírito soprou sobre a vida”, de Erica Nara Bombardi, um conto terno e gostoso como abraço de mãe sobre uma mulher encarregada de cuidar de bichos mágicos que, com aparência de bebezinhos meio encapetados, acabaram de chegar ao nosso mundo. Já “O monstro do Igarapé das Almas”, de Bia Chaves, é dolorido, melancólico e profundo como um igarapé, uma carta de amor e arrependimentos sobre um monstro que foi forçado a sê-lo. “Breve biografia de uma cadeira lúcida”, do nosso brasileiríssimo Renan Bernardo, é a primeira das quatro histórias escritas originalmente em inglês da edição; com uma narradora pouco convencional compartilhando sua forma de ver o mundo enquanto é levada de um lado para o outro, ela conquistou tanto o mundo anglófono que foi finalista do prestigiadíssimo prêmio Nebula na categoria noveleta. Falando em mundo anglófono e em prêmio, temos a honra de publicar em português brasileiro “O algoritmo do bem-estar”, da multipremiada Naomi Kritzer; na história “anti-Black Mirror”, nada mais, nada menos do que vencedora do Hugo e finalista do Nebula de melhor conto, acompanhamos os desenrolares de um aplicativo em que um algoritmo muito bem-pensado realmente contribui para uma vida melhor. Em “Uma eulógia para todos os fins”, história da Jana publicada lá fora na antologia Imagine 2200, conhecemos o dia a dia da tanatopraxista de Caiação, uma comuna onde se vive de forma tão sustentável quanto possível, e onde os mortos contam com a ajuda de fungos para voltar à terra se integrando de forma saudável ao solo. Para fechar, “Quatro memórias soltas”, do Diogo, é um presente para a comunidade do Fantástico Guia; essa ficção relâmpago sombria sobre travesseiros capazes de expurgar memórias desagradáveis está planejada para sair em 2026 na coletânea em inglês Of Dread, Decay, and Doom — mas você vai poder dizer que leu primeiro aqui na Cascártica.
Dito isso, é hora de desejar uma ótima leitura! Se você curtiu a edição, compartilhe com o mundo a existência da Cascártica para que essas histórias incríveis cheguem a mais pessoas. E se tiver interesse em fazer parte da nossa equipe, pode entrar em contato pelo fantasticoguia@gmail.com que explicamos tudo sobre o CLET; lembrando que todos os nossos autores (assim como ilustradores de capa) firmam contratos, são pagos pelos direitos autorais e não precisam investir nem um real em serviços editoriais, feitos de forma voluntária pelos Guias e pelos membros do CLET.
Isso só é possível devido à contribuição mensal de todos os participantes dos Clubes ou das Turmas do Fantástico Guia.
E por falar nisso, esta edição é dedicada a todas as pessoas incríveis que fazem ou já fizeram parte da equipe da Cascártica. Obrigada por ter dedicado tempo e esforço à nossa revista e por acreditar nessa ideia de que é muito mais legal aprender na prática — e junto com outras pessoas interessadas em conhecer mais do mercado editorial. A jornada não precisa ser solitária, e o vasto mundo das revistas literárias ainda nos reserva muitas aventuras.
Um abraço cascártico,
Diogo e Jana

Jana Bianchi e Diogo Ramos já atuaram juntos em diversas frentes do mercado editorial e de criação. Escrevem ficção curta e longa a quatro mãos, tanto em inglês quanto em português; ambos têm contos publicados na revista Suprassuma (editora Suma) e foram convidados para fazer parte da antologia As aventuras de Feldon & Alma (Jovem Nerd e Editora Jambô) com uma história em coautoria. Também já traduziram em parceria livros e quadrinhos de grandes nomes como George R. R. Martin. Após editar e publicar dezenas de autores em suas respectivas revistas de ficção especulativa (Mafagafo e A Taverna), coordenaram e publicaram uma coletânea bilíngue de contos sobre visões positivas da democracia financiada pela ONG estadunidense NDI (National Democratic Institute). Além de estar à frente de grupos de escrita e tradução, já lecionaram em workshops internacionais como o da prestigiada escola de escrita criativa Clarion West, além de participar de atividades em eventos como RightsCon e Flights of Foundry.