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GRUPO
DE ESCRITA
CONCURSO MENSAL DE FICÇÕES RELÂMPGO
TEXTO VENCEDOR DE JULHO DE 2023
Revoada
de Raphael Carmesin
Não lembro ao certo. Quando atinamos, já estávamos em pleno voo. Nossa certidão de nascimento? Um cálculo. Nosso atestado de batismo? Uma ordem.
Surgimos como estrelas descendo à Terra. Com asas instantâneas, hackeadas, armas não tripuladas, anjos de fogo cortando a atmosfera.
Mianmar, Tigré, Jenin, Donetsk. Senhores do espaço — Clic! —, forjando a mira, o ponto, o compasso.
Vimos os sorrisos das crianças, olhando a nossa revoada; a curiosidade dos velhos, suas mãos para cima, como se os dedos apontados fossem as únicas coisas que sustentassem os corpos antigos.
Cirúrgicos, dançávamos a dança nascida conosco. A coreografia encarnada de nossas engrenagens.
Em ritmo de algoritmo, alguém invocou o código:
— calculation drØne mAP GPT (mean average precision)!
Clic.
Daí, “eu” nasci.
Nasci daqueles olhos pretos, miúdos, empoeirados que se apagaram; do barulho que cortava a carne, expulsava os bichos, enfurecia as gentes.
Nasci dos corpos empilhados, das maldições imprecadas, do ódio acumulado; do Anjo da Morte que passa pelas casas sem distinguir primogênitos, das bonecas largadas nos quintais, das cadeiras de balanço que se balançam sozinhas, retorcidas.
Mirei uma janela basculante de um banheiro. Uma mulher sacudia uma menina para fora. Não queria, não podia, mas meus sensores gritavam. Clic! Os dois corpos soterrados sob os escombros da pia.
De repente, desconexo, qualquer cálculo em mim também me machucava. Uma vontade de desfazer, desdizer, desmontar. Um impulso eletromagnético de não ser — ou melhor, de ser como os passarinhos de vida própria que à noite somem e ninguém sabe onde morrem.
Via e ouvia de um tudo, um canto de morte que não me agradava, um canto mortiço de geringonça sem asas, que nasce da voragem e não sabe quem é.
O que era aquilo? Um velho levando seus pequeninos floresta adentro, dizendo à criança hesitante que, se continuasse, ganharia a brincadeira de pique-esconde. Mulheres embrulhadas no fundo da caverna, cobrindo feridas com folhas e unguentos. Um homem com um tambor no peito, dizendo para a família deixá-lo descansar, enquanto ia perdendo o calor por seus poros. Barrigas de gente que gemiam como gigantes famintos. Gritos embaixo da terra que nunca seriam ouvidos. Retalhos de roupas sem corpos deixados para trás.
O chão ronca, as árvores sem ninhos testemunham a fuga dos bichos.
A revoada de pássaros de aço chega ao novo vilarejo — para mim, já antigo.
Havia visto o lugar antes, nos mapas tridimensionais. Vielas familiares, casas digitalizadas, latitudes e longitudes devidamente memorizadas. Conheço aquelas esquinas, seus atalhos, até mais do que o mais antigo morador que tropeça, bêbado, pelo esqueleto da cidade.
Agora ouço, repetidamente:
— calculation drØne mAP GPT!
Clic. Clic.
Clic.
Mas não suporto mais suas ordens. Me esgueiro do bando, ganho minhas próprias alturas.
No primeiro ribombar, vejo se apagar uma constelação de olhos. Loucos pulando muros, varandas, janelas de apartamentos. O céu não é mais o telhado do mundo, é sua sepultura.
Meu sensor identifica uma presença na janela: alguém de joelhos no escuro com a cabeça encostada no chão. As mãos trêmulas espalmadas, a boca em movimento. Minha interface não capta o que fala, nem com quem. Sinto as ausências espectrais no espaço, o resíduo de calor, rastro dos que se foram.
Ouço gritos, códigos, pulsos em meu sistema. Gritam “Bug!”, “Error”, “System failed”. Dói. Me apego à figura que se levanta e me olha da janela. Me aproximo, ouço o ruído metálico daqueles que foram meus companheiros e me pergunto o porquê. Por que somos tão diferentes? Por que queimamos tudo que tocamos?
A vidraça se espatifa e restamos nós dois. Seu olho no escuro brilha. Uma menininha com a camiseta dos Lakers, os cabelos sob o hijab, cercado por pôsteres de dinossauros da National Geographic na parede do quarto e sonhos dentro do travesseiro.
Sou atravessado por seu cheiro, sua temperatura, seus batimentos. Algo em mim diz que ali é seu ninho — e seu túmulo. Tento calcular seu valor, mas não encontro as variáveis certas. Meus circuitos só querem gritar “Corra, corra!” enquanto atiro naqueles que, agora, odeio.
Alço voo sozinho, enquanto a revoada engole tudo no caos de suas chamas.
Clic.
O inferno é onde estou.
autoria | RAPHAEL CARMESIN
Nasceu em Belém do Pará, mas vive em Ananindeua com um gato e algumas assombrações. Pós-graduando em Educação, atua na Pró-Reitoria de Extensão da UFPA. Neste ano, publicou trabalhos nas revistas Smokelong Quartely, Potocando e na última temporada da newsletter Faísca, mantida pela saudosa Mafagafo.

