Eu nunca gostei de ser o centro das atenções. Odeio pessoas olhando para mim. Não vai ter festa de aniversário? Esse tipo de coisa sempre me deixou desconfortável. O coração acelera e parece que vai explodir.
No elevador do prédio, adotei uma estratégia simples. Tento ficar sempre no fundo para evitar contato visual. Tudo bem? Um cumprimento rápido e nada mais. Fingir ver alguma coisa no celular também ajuda na proteção contra interações sociais.
Por isso, odiei quando vi o homem com terno cor de terra e a mulher de leque no fundo do elevador. Conversavam sobre alguém, e eu não teria como ficar no fundo sem me meter entre eles. Se ela odeia tanto, não sei por que ainda mora aqui no prédio. Me virei de costas e dei de cara com a mulher do isqueiro e o homem com a garrafa de água mineral. A porta fechou e senti o coração disparar ao perceber que estava bem no centro.
Eu tinha certeza de que o celular estava carregado, mas ele não ligou. Fiquei encarando a tela preta e apertando o botão várias vezes. Acho que o elevador travou. Paramos no terceiro dos cinco andares. A porta não abriu.
Isqueiro mandou Água Mineral apertar o botão do alarme. Estávamos todos presos ali, mas ela parecia ser a mais impaciente. Acho que também não conheço ninguém desse andar. Leque e Terno Cor de Terra conheciam todo mundo no prédio? Eu não conseguia nem raciocinar se já tinha visto alguém subir ou descer do elevador no terceiro.
O botão do alarme não funcionou, mas Água Mineral parecia conformado com a situação. Não demorou para que ele e Isqueiro começassem a conversar com os outros dois. Acho que a gente vai ter que dar uns gritos pra ver se alguém ouve. Eu estava no fogo cruzado. Tive um momento de alívio quando Terno Cor de Terra pegou o celular para tentar pedir ajuda.
O celular dele também não ligou. Nenhum dos aparelhos estava funcionando. Acho que o Capeta não quer que a gente saia daqui. Os quatro riram da piada de Leque. Riram até tudo escurecer.
Acho que ficaram sem reação. O silêncio me confortou, mas aos poucos eles voltaram a conversar. Que barulho foi esse? Eram sons vindos do lado de fora. Alguma coisa se mexendo pelo corredor.
Isqueiro começou a bater na porta e pedir socorro. Água Mineral tentou acalmá-la, mas ela gritava ainda mais alto. Alguém vai tirar a gente daqui. Leque parecia concordar com Terno Cor de Terra. Todos ficaram em silêncio quando alguma coisa bateu na porta pelo lado de fora.
Os quatro respiraram aliviados assim que a luz voltou. Tentei esconder meu desconforto ao notar que estava entre quatro pares de olhos novamente. Acho que agora o elevador deve funcionar. Todos concordaram com Água Mineral até perceber as luzes piscantes. Minha tensão se misturava à deles.
Ficamos no escuro mais uma vez. Isqueiro gritou. Tem alguma coisa aqui. Agora, os barulhos pareciam vir de dentro do elevador. Todos falavam ao mesmo tempo, mas pelo menos não olhavam para mim.
Depois de alguns instantes de desespero, a luz voltou. Nenhum bicho estranho no elevador, mas a calma deles não durou muito. Pra onde ela foi? Isqueiro não estava mais ali. Eu não quis comentar as manchas de sangue no chão porque isso atrairia a atenção deles para mim.
Segundo Terno Cor de Terra, deveria haver alguma explicação simples. Água Mineral se ajoelhou e começou a chorar. Eu não quero morrer assim. As palavras de Leque aumentaram ainda mais a tensão no ar. Ela gritou quando as luzes se apagaram mais uma vez.
Os sons estranhos quase se perdiam em meio aos gritos no fundo do elevador. Acredito que Água Mineral estava em choque. É um bicho gosmento! A racionalidade de Terno Cor de Terra desapareceu naquela frase. Ele não estava mais ali quando as luzes voltaram.
Leque se apavorou ao ver as manchas de sangue onde antes estava o homem. Olhou diretamente para mim. O que tá acontecendo aqui? O olhar dela ou o bicho gosmento? Eu não conseguia decidir qual era pior.
Água Mineral chorava de um lado e Leque me sacudia pelos ombros de outro. Eu só queria sair dali. A gente vai morrer. As palavras dela me perturbavam menos que os olhos fixos nos meus. Eu queria dizer alguma coisa, mas não sabia o quê.
Quando ficamos no escuro de novo, ela gritou. O alívio de não ser mais o centro das atenções sumiu quando ouvi os sons estranhos novamente. Meu Deus, não quero morrer. Ouvindo a voz dela, eu sabia que ainda estava ali. Pelo grito, Água Mineral tinha saído do choque.
As luzes se acenderam. Éramos apenas Leque e eu no elevador. Pra onde foi todo mundo? Notei que eu ainda estava no centro. Aparentemente, o bicho atacava pelos cantos.
Tentei explicar minha conclusão, mas Leque não me ouvia. Parecia apavorada demais para entender quaisquer palavras. Nós vamos morrer. Ela gritou ainda mais alto quando as luzes se apagaram. Gritou por apenas alguns instantes.
A luz se acendeu e o elevador voltou a funcionar. Enquanto subia, eu só conseguia pensar em minhas últimas palavras para Leque. Vem pro centro comigo. A porta abriu no meu andar. Saí torcendo para nunca ter que explicar todas aquelas manchas de sangue.

Carlos Macedo é escritor, quadrinista, professor de inglês e, eventualmente, tradutor. É formado em Letras e no Curso de Formação de Escritores da editora Metamorfose. Também estudou na Roteiraria e no Narratologia. Seus trabalhos mais recentes são as HQs Zona de transferência e Gabrielas, ambas em parceria com a ilustradora Mariana Couto, com quem tem o selo independente O Ornitorrinco. Teve contos publicados em coletâneas diversas como Pequenas histórias de Porto Alegre, Diálogos e Planeta Fantástico – volume 2.