Luzia tentava controlar a voz para parecer menos angustiada do que realmente estava. Riscou um fósforo e acendeu três varetas de incenso. Na mesma hora, se lembrou da juventude, quando o irmão era capaz de as fazer pegar fogo ao assoprá-las.
— Você lembra do feitiço ou é melhor pegar o livro?
— Pega o livro. Melhor ter certeza — Cervantes respondeu.
Para irmãos, ele e Luzia nunca haviam se dado particularmente bem. Eram muito parecidos fisicamente, com suas peles escuras, sobrancelhas grossas e lábios cheios; no entanto, tinham personalidades bastante distintas. Ainda assim, quando sua família pede ajuda, é difícil virar as costas. Especialmente no caso de uma família de bruxos. Luzia passou o indicador pela página amarelada do livro, conferindo de que precisariam para o ritual.
— É como eu lembrava mesmo… — atestou.
Sentou-se de frente para Cervantes. Entre eles, no piso, deixou uma vela branca em pé sobre um pires. Entregou uma caixa de fósforos para o irmão, dizendo:
— Quando a chama ficar azul, quer dizer que funcionou. Acenda a vela e entoe o feitiço junto comigo.
Luzia reconheceu instantaneamente a expressão de contragosto do irmão; era a mesma que agora costumava ver no rosto do filho adolescente.
— A gente precisa mesmo fazer isso, Luzia?
— Se eu pudesse fazer sozinha, não pediria sua ajuda.
Cervantes se rendeu, levantando as mãos. Acendeu a vela, pegou o livro das mãos da irmã e recitou as palavras:
— “Fogo que ilumina, afaste as sombras da mentira. Com verdade o alimentamos, para que verdade nos sirva.”
Repetiram o encantamento em uníssono por três vezes, quando sentiram o calor e o silêncio que acompanhavam um trabalho mágico se assentarem sobre eles. Luzia disse com a voz firme, mas sem muita emoção:
— Eu te acho profundamente egoísta.
— Uau! Sério?
Cervantes balançou a cabeça, incrédulo, mas a irmã apenas suplicou:
— Por favor…
Era a exigência do feitiço da verdade que estavam tentando executar. Precisavam dizer verdades para alimentar a chama; quando esta se tornasse azul, significaria que, pelas próximas horas, poderiam interrogar quem quisessem com a garantia de que ouviriam apenas a verdade.
— Eu acho que você se ressente por eu ter seguido minha própria vida enquanto passa a sua tentando agradar nosso pai — Cervantes devolveu.
— Você gosta de falar de liberdade, mas nunca admite que só tem a sua porque jogou suas responsabilidades nos ombros dos outros.
— Eu não sou responsável pelas expectativas que os outros criam sobre mim. Só porque nosso pai tinha a ilusão de que eu era o futuro da nossa família e…
Luzia interrompeu:
— Verdades. Não conjecturas, Van.
— Verdades… — Cervantes tentou imitar o tom displicente da irmã. — Você só se casou com o Luiz porque era o que nosso pai queria, não porque o ama de verdade.
— Sim. Aprendi a amar meu marido com o tempo. Mas nunca me apaixonei por ele.
A chama aos poucos saia do laranja e assumia um tom azulado. As verdades estavam funcionando, mas ainda não eram o suficiente. Cervantes prosseguiu:
— Quando você contou pro pai sobre o Mathias e eu… — Cervantes mudou a direção da frase no meio. — Pra mim sempre foi sua culpa eu ter que me afastar da pessoa que eu mais amava.
Luzia balançou a cabeça como se tivesse acabado de entender algo. Não havia emoção em seu rosto, tampouco em sua voz, quando retribuiu a confissão:
— Eu não me arrependo disso. Era o seu dever tomar a frente da família, assegurar nosso legado, levar adiante nossos conhecimentos e nossa magia.
Cervantes a olhava como se tivesse acabado de levar um tapa.
— É só isso que importa pra vocês? Magia?
— Magia é nossa herança.
— E nosso castigo! — Cervantes sequer tentava disfarçar a revolta. — A solidão. Sempre tendo de mentir para os outros ou me afastar. Como você consegue ignorar o custo de manter esse poder?
— E ainda assim — Luzia parecia ter decidido encarar a briga — você nunca deixou seus poderes pra trás.
— Já os perdi mais de uma vez, e você sabe.
Acontecia de bruxos perderem seus poderes quando tinham o coração partido — como quando Cervantes fora separado de Mathias, melhor amigo e namorado da adolescência.
— É, mas nunca os abandonou. Porque você gosta do poder, Van. Só não gosta da responsabilidade.
— Não gosto de regras estúpidas criadas por gente morta há séculos e que amava controle mais do que pessoas.
Luzia deu de ombros.
— Amar pessoas nem sempre vale a pena.
— Quer uma verdade? Você é tão controladora, insensível e homofóbica quanto nosso pai foi, e vai acabar fazendo seu filho se afastar de você do mesmo jeito que eu me afastei.
Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto de Luzia. Cervantes chorava também.
— Tenho medo de que você esteja certo sobre o que acabou de dizer.
Um azul intenso iluminou o quarto. A chama cintilava, confirmando que a magia dera certo. Luzia segurou a vela e limpou o rosto. Não havia mais raiva na voz de Cervantes, só cansaço.
— O que você precisa tanto saber que valha toda essa dor, irmã?
— Vi uma mensagem no celular do Luiz. Acho que ele tá me traindo.
— Luzia… Eu sinto muito.
— Pode ser só sexo, mas existe a possibilidade de ele estar sendo usado como um meio pra atacar nossa família, roubar nossa magia ou o que seja. Preciso ter certeza. Pra manter todos seguros.
— Se ele realmente estiver te traindo, o que você vai fazer?
— Se for só sexo…
— O que? Vai deixar ele seguir te desrespeitando?
— Van, são quase vinte anos. A gente se ama. Se for o que ele precisa pra ser feliz, vamos chegar a um acordo.
— E quanto ao que você precisa pra ser feliz?
Não respondeu. Agradeceu a ajuda do irmão e pediu que ele levasse o sobrinho pelo fim de semana para que pudesse conversar com o marido. Cervantes aceitou com entusiasmo; ele e o garoto se adoravam. Quando ficou só, Luzia tentou pensar no que precisava para ser feliz. Percebeu que não sabia. Nunca tinha pensado muito a respeito — e, aparentemente, ninguém fizera aquilo por ela.

Nasceu em Campo Grande (MS), mas cresceu em Presidente Prudente (SP). Gosta de criar histórias sobre famílias disfuncionais, garotos bissexuais e magia. Seus escritos estão espalhados em sites, revistas e antologias (algumas das quais ele mesmo organizou). Além de escritor é psicólogo, colaborador do site Seleções Literárias e fã incorrigível de Buffy, a Caça-Vampiros.